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O cérebro e o ambiente.

20 de ago.
6 min de leitura

Atualizado: 5 de set.

Neurodiversidade, estímulos sensoriais e neuroarquitetura


Como os estímulos presentes nos espaços que habitamos podem participar da nossa experiência, do nosso comportamento e da nossa qualidade de vida.



Você já parou para pensar em quanto do que sente ao entrar em um ambiente acontece antes mesmo de perceber conscientemente?

Antes de escolher onde sentar, observar a decoração ou decidir se gostou daquele espaço, seu cérebro já começou a receber e organizar uma enorme quantidade de informações.

A intensidade da luz.

As cores.

As formas.

A quantidade de objetos.

Os padrões.

Os sons.

A temperatura.

Os materiais.

E até aquilo que ainda não conseguimos nomear conscientemente.

O ambiente não é apenas o cenário onde a vida acontece.

Ele também é uma experiência sensorial.

E essa experiência não é necessariamente igual para todas as pessoas.


Quando olhar também pode cansar

A visão costuma ocupar um lugar privilegiado quando pensamos em arquitetura e design.

Escolhemos cores, móveis, objetos, revestimentos e elementos decorativos considerando principalmente aquilo que será visto.

Entretanto, cada elemento acrescentado ao ambiente também representa uma informação que precisa ser processada.

Um espaço visualmente carregado, com muitos objetos, padrões, contrastes ou estímulos concorrentes, pode aumentar a quantidade de informações disputando nossa atenção.

Para algumas pessoas, isso pode ser apenas uma característica estética.

Para outras, especialmente aquelas com determinados perfis de processamento sensorial, pode contribuir para distração, desconforto ou sobrecarga.

Isso não significa que ambientes minimalistas sejam necessariamente melhores.

Nem que exista uma quantidade ideal de estímulos visuais que funcione para todos.

A questão é mais complexa.

O que é visualmente estimulante para uma pessoa pode ser excessivo para outra.

E essa diferença nos leva a uma questão particularmente importante quando pensamos em neurodiversidade.


Neurodiversidade: quando o mesmo ambiente não é percebido da mesma maneira

Duas pessoas podem entrar no mesmo ambiente, ao mesmo tempo, e vivenciar experiências completamente diferentes.

Para uma delas, uma iluminação intensa pode ser apenas parte da paisagem.

Para outra, pode se tornar um estímulo difícil de ignorar.

Um padrão geométrico pode despertar interesse e conforto em uma pessoa e, em outra, produzir distração ou desconforto.

Um ambiente silencioso pode ser acolhedor para alguns e tornar determinados sons ainda mais perceptíveis para outros.

Isso acontece porque não existe uma única maneira de o cérebro perceber e organizar as informações sensoriais.

A neurodiversidade nos convida justamente a reconhecer essa variação.

Pessoas neurodivergentes podem apresentar diferentes formas de perceber, processar e responder aos estímulos. Dentro dessa diversidade, podem existir perfis caracterizados por maior sensibilidade a determinados estímulos, menor responsividade, busca sensorial ou diferentes combinações dessas características.

Por isso, falar em “ambientes para neurodivergentes” exige cuidado.

Não se trata de criar um espaço único que funcione igualmente bem para todas as pessoas neurodivergentes.

Trata-se de criar ambientes capazes de oferecer alternativas e algum grau de controle sobre a experiência sensorial.

Essa mudança de perspectiva é fundamental.

Em vez de perguntar:

“Qual ambiente é adequado para uma pessoa neurodivergente?”

podemos perguntar:

“Quais possibilidades este ambiente oferece para que diferentes pessoas possam regulá-lo de acordo com suas necessidades?”

Essa segunda pergunta transforma a arquitetura.


Do estímulo ao controle

Um ambiente sensorialmente consciente não precisa ser vazio, monocromático ou desprovido de estímulos.

Na verdade, eliminar todos os estímulos também pode não ser desejável.

O objetivo é encontrar equilíbrio, previsibilidade e possibilidade de escolha.

Uma iluminação que possa ser ajustada.

Um espaço visualmente organizado, sem excesso de informações concorrentes.

Materiais e texturas utilizados de maneira intencional.

Áreas que permitam maior privacidade ou recolhimento.

Transições espaciais compreensíveis.

E, principalmente, possibilidades de adaptação.

A literatura sobre ambientes construídos e neurodiversidade tem apontado para a importância de características como previsibilidade, controle, redução de estímulos desnecessários, possibilidade de retirada e criação de espaços de recuperação sensorial.

Isso nos conduz a uma ideia essencial:

uma boa arquitetura não precisa controlar a experiência de quem a utiliza; ela pode oferecer condições para que cada pessoa encontre sua própria forma de estar naquele espaço.


Neuroarquitetura: quando o espaço começa a considerar o cérebro

Se o ambiente participa da experiência humana, projetá-lo significa também tomar decisões sobre os estímulos que estarão presentes nessa experiência.

É nesse território interdisciplinar que encontramos a neuroarquitetura: uma abordagem que busca aproximar conhecimentos sobre comportamento, percepção e funcionamento humano das decisões relacionadas aos espaços que habitamos.

A proposta não é transformar a arquitetura em uma espécie de “prescrição cerebral”, nem afirmar que existe uma fórmula capaz de produzir determinada emoção em todas as pessoas.

É justamente o contrário.

A neuroarquitetura nos lembra que as respostas humanas aos ambientes são complexas e dependem da pessoa, do contexto, da atividade realizada e de suas características sensoriais e emocionais.

Por isso, elementos como iluminação, acústica, escala, organização espacial, materiais, cores, vistas para o exterior e possibilidade de controle do ambiente podem ser considerados não apenas por sua função estética, mas também pela experiência que proporcionam.

Um quarto não precisa oferecer a mesma experiência sensorial de uma escola.

Um consultório não precisa funcionar como uma residência.

Um espaço de trabalho não precisa estimular o mesmo nível de atenção de um ambiente destinado ao descanso.

A função do espaço também deve orientar a experiência sensorial que desejamos favorecer.

E talvez esse seja um dos princípios mais interessantes da neuroarquitetura:

não existe apenas uma pergunta sobre como o ambiente é.

Existe também uma pergunta sobre:

O que este ambiente está convidando o cérebro a fazer?

Projetar não apenas para os olhos

Essa mudança de perspectiva nos conduz a uma ideia maior.

Durante muito tempo, pensamos os espaços principalmente a partir daquilo que podemos ver.

Mas nós não somos apenas olhos.

Somos organismos sensoriais.

Percebemos luz e sombra, temperatura, sons, texturas, movimentos, cheiros, distâncias e mudanças no ambiente.

Nosso cérebro integra essas informações continuamente para construir uma experiência daquele lugar.

Por isso, projetar para o bem-estar talvez não seja apenas escolher elementos visualmente agradáveis.

É também considerar como esses elementos participam da experiência de quem vive naquele espaço.

Isso é especialmente importante quando pensamos em ambientes utilizados por pessoas com diferentes perfis sensoriais.

Mas também ultrapassa a neurodiversidade.

Porque oferecer maior possibilidade de escolha, conforto e controle pode beneficiar muitas pessoas.

Uma sala que permite reduzir a iluminação pode ser importante para alguém com maior sensibilidade visual.

Mas também pode simplesmente ser mais confortável para alguém que deseja descansar.

Um espaço organizado e previsível pode favorecer uma pessoa neurodivergente.

Mas também pode facilitar a orientação de uma criança, de uma pessoa idosa ou de alguém que esteja chegando pela primeira vez.

A acessibilidade sensorial não precisa beneficiar apenas um grupo.

Ela pode tornar os ambientes mais humanos para todos.


Um ambiente sensorialmente consciente

Pensar dessa maneira não significa criar ambientes neutros.

Significa criar ambientes nos quais os estímulos tenham intenção, coerência e possibilidade de adaptação.

Um ambiente sensorialmente consciente começa pela observação.

Como a luz se comporta ao longo do dia?

Quais elementos disputam nossa atenção?

Existe excesso de informação visual?

Os sons são previsíveis ou imprevisíveis?

Há possibilidade de recolhimento?

O espaço permite algum grau de controle?

A atividade realizada naquele local combina com os estímulos oferecidos?

Essas perguntas podem parecer simples, mas mudam a maneira como olhamos para os espaços.

Em vez de perguntar quantos elementos podemos acrescentar a um ambiente, talvez seja mais interessante perguntar:

Quais deles realmente precisam estar ali?

Isso não significa defender o minimalismo como regra universal.

Um ambiente rico em objetos, cores e referências pode ser extremamente significativo para algumas pessoas.

O ponto é outro:

a experiência sensorial precisa ser coerente com a função do espaço e com as necessidades de quem o utiliza.

E talvez aqui esteja uma das maiores contribuições da neuroarquitetura:

não existe um ambiente universalmente ideal. Existem ambientes capazes de oferecer diferentes possibilidades de experiência.


Um convite à percepção

Talvez a primeira transformação não esteja no ambiente.

Talvez esteja na maneira como passamos a percebê-lo.

Antes de reformar, decorar ou reorganizar um espaço, podemos simplesmente observá-lo.

O que ele nos convida a fazer?

O que chama nossa atenção?

O que nos acalma?

O que nos distrai?

O que nos oferece segurança?

O que parece excessivo?

E, principalmente:

como o meu cérebro experimenta este lugar?

Essa pergunta pode parecer pequena.

Mas ela muda nossa relação com os espaços que habitamos.

Porque quando compreendemos que o ambiente participa da nossa experiência, arquitetura e design deixam de ser apenas questões de estética.

Passam a ser também questões de percepção, comportamento, acessibilidade, conforto e qualidade de vida.

Talvez projetar para os sentidos seja, antes de tudo, aprender a olhar para o ser humano de maneira mais integral.

E talvez transformar os espaços que habitamos comece simplesmente por aprender a percebê-los.


Uma última reflexão

Não se trata de estimular mais. Trata-se de estimular melhor.

E isso pode significar algo diferente para cada pessoa.

Porque diferentes cérebros percebem o mundo de diferentes maneiras.

E uma arquitetura verdadeiramente humana começa quando reconhecemos essa diversidade.


Conhecimento também é uma forma de cuidar.


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Sobre a autora

Valéria Noffs é fundadora da ÖListic, perfumista botânica clássica, aromaterapeuta especializada em Psicoaromaterapia e terapeuta holística integrativa. Pós-graduanda em Neurociências, também é advogada e designer de interiores, dedicando-se à pesquisa e ao desenvolvimento de experiências olfativas, neuroarquitetura e bem-estar integrativo.


ÖListic · Experiências Olfativas & Bem-Estar - Energia interagindo com energia.

1 comentário


Lorena Noffs
20 de ago.

👏👏

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