top of page

Sistema Endocanabinoide: o grande regulador da homeostase

há 5 dias
8 min de leitura

Artigo 1 - Série Aromaterapia Canábica


Um sistema que já existia em nós antes mesmo de conhecermos a Cannabis


Existe Cannabis dentro de nós?


A pergunta parece estranha. Afinal, Cannabis é uma planta.

Mas existe, sim, algo relacionado a ela dentro do nosso organismo — não a planta em si, naturalmente, mas um sofisticado sistema biológico que recebeu o nome de Sistema Endocanabinoide.

E há uma curiosidade ainda maior nessa história: esse sistema já existia muito antes de a humanidade conhecer a Cannabis.

Foi justamente a investigação científica sobre os componentes da planta que ajudou os pesquisadores a descobrir que nosso próprio organismo produzia moléculas capazes de interagir com receptores semelhantes aos ativados por alguns componentes da Cannabis.

Em outras palavras: a Cannabis não criou o Sistema Endocanabinoide. Ela ajudou a ciência a descobri-lo.

 

Afinal, o que é o Sistema Endocanabinoide?


Imagine que nosso organismo seja uma enorme cidade.

Milhares de processos acontecem simultaneamente: temperatura, fome, sono, resposta ao estresse, atividade neuronal, percepção da dor, metabolismo e funcionamento do sistema imunológico.

Esses processos precisam estar em constante comunicação.

É nesse cenário que entra o Sistema Endocanabinoide — uma rede de sinalização que participa da regulação de diferentes funções fisiológicas e contribui para a manutenção da chamada homeostase, isto é, a capacidade do organismo de manter um equilíbrio dinâmico mesmo diante das mudanças.

Não significa que o corpo permaneça sempre igual.

Significa que ele possui mecanismos capazes de ajustar suas respostas conforme as circunstâncias.

O Sistema Endocanabinoide é uma dessas redes reguladoras.


Os três elementos dessa rede


Para compreender o funcionamento básico do Sistema Endocanabinoide, podemos pensar em três protagonistas: mensageiros, receptores e enzimas.


Os endocanabinoides são moléculas produzidas pelo próprio organismo que funcionam como mensageiros.

Os receptores são estruturas celulares capazes de reconhecer esses mensageiros e desencadear respostas.

E as enzimas participam da produção e, principalmente, da transformação e inativação dessas moléculas, ajudando a determinar por quanto tempo e em que intensidade seus sinais permanecem ativos.

É uma comunicação dinâmica.

A célula produz o mensageiro quando necessário, ele encontra seu receptor e, posteriormente, seu sinal é reduzido ou encerrado por diferentes mecanismos metabólicos.

Entre os principais componentes dessa rede estão dois endocanabinoides particularmente estudados: anandamida e 2-AG.

 

Os mensageiros: anandamida e 2-AG


A anandamida, também conhecida como AEA, e o 2-AG, abreviação de 2-araquidonoilglicerol, são considerados os dois principais endocanabinoides.

São moléculas produzidas pelo próprio organismo a partir de componentes lipídicos das membranas celulares.

E existe uma característica especialmente interessante nessa comunicação: diferentemente de muitos neurotransmissores clássicos, os endocanabinoides não precisam ficar previamente armazenados em vesículas para serem liberados.

Sua produção ocorre predominantemente sob demanda.

Ou seja, diante de determinados estímulos, a célula pode produzir essas moléculas e utilizá-las como sinais regulatórios.

É quase como se o organismo tivesse um sistema de mensagens que pudesse escrever uma nova mensagem justamente quando ela fosse necessária.

O nome anandamida também guarda uma curiosidade.

Ele deriva de ānanda, palavra de origem sânscrita associada a conceitos como felicidade, alegria ou bem-estar.

Mas isso não significa que a anandamida seja simplesmente “a molécula da felicidade”.

Seu papel biológico é muito mais complexo.

Ela participa de diferentes processos de sinalização e pode atuar em diferentes sistemas e receptores, dependendo do contexto.

 

Os receptores: onde as mensagens são recebidas


Os dois receptores canabinoides clássicos mais conhecidos são CB1 e CB2.

Eles pertencem a uma família de receptores celulares conhecida como receptores acoplados à proteína G.

Para simplificar, podemos imaginá-los como pontos de escuta espalhados pelo organismo.

O CB1 é especialmente abundante no sistema nervoso central e tem papel importante na modulação da comunicação entre neurônios.

O CB2, por sua vez, apresenta forte relação com células e processos do sistema imunológico e inflamatório, embora sua presença e suas funções não se limitem a esses tecidos.

Essa distinção é útil para compreender o sistema, mas não deve ser transformada em uma divisão rígida de “CB1 é cérebro” e “CB2 é imunidade”.

A biologia é mais complexa do que isso.

Hoje sabemos, por exemplo, que CB2 também participa de processos no sistema nervoso, especialmente em determinados contextos fisiológicos e patológicos.


Uma comunicação que pode acontecer “ao contrário”


Aqui está uma das características mais fascinantes do Sistema Endocanabinoide.

Em muitas formas de comunicação neuronal, imaginamos a informação seguindo uma direção: um neurônio libera um neurotransmissor e ele atua sobre outro neurônio.

Com os endocanabinoides, pode acontecer algo diferente.

Em determinadas situações, a célula pós-sináptica produz um endocanabinoide — especialmente o 2-AG — que pode viajar de volta até o terminal pré-sináptico.

Ali, ele encontra receptores CB1 e pode reduzir temporariamente a liberação de neurotransmissores.

É uma espécie de sinal de retorno.

Como se o neurônio que recebeu a mensagem pudesse dizer ao neurônio que a enviou:

“Já recebi. Pode diminuir um pouco o volume.”

Essa sinalização retrógrada é uma das formas pelas quais o Sistema Endocanabinoide ajuda a modular a atividade das sinapses.

E novamente há uma ressalva importante: essa não é a única forma de ação dos endocanabinoides, mas é uma das mais bem caracterizadas no sistema nervoso.

 

Quem encerra a mensagem?


Se o organismo produz sinais quando precisa deles, também precisa possuir mecanismos para controlar sua duração.

É aqui que entram as enzimas.

Entre as mais importantes estão:

FAAH — principalmente relacionada à degradação da anandamida

MAGL — principal enzima responsável pela degradação do 2-AG

Elas ajudam a limitar a duração e a intensidade da sinalização desses endocanabinoides.

Mas não são as únicas vias envolvidas.

O metabolismo de AEA e 2-AG é mais complexo e inclui outras enzimas e rotas metabólicas, algumas das quais também podem gerar moléculas biologicamente ativas.

Por isso, é mais correto pensar em FAAH e MAGL como principais componentes do metabolismo desses dois endocanabinoides, e não como os únicos responsáveis por “desligar” todo o Sistema Endocanabinoide.

 

Mas por que o nosso corpo precisa de tudo isso?


Porque o organismo está constantemente tentando responder a mudanças.

Dor.

Estresse.

Sono.

Fome.

Memória.

Atividade neuronal.

Metabolismo.

Resposta imunológica.

Inflamação.

Esses processos não são independentes. Eles se influenciam continuamente.

O Sistema Endocanabinoide participa da modulação de vários deles, ajudando a ajustar respostas fisiológicas de acordo com o contexto.

Por isso, ele passou a ser estudado não apenas pela relação com Cannabis, mas também por seu possível envolvimento em processos tão diversos quanto percepção da dor, regulação do estresse, memória, metabolismo, atividade imunológica e neuroinflamação.

Mas aqui precisamos fazer uma distinção essencial: participar da regulação de um processo não significa controlá-lo sozinho.

E muito menos significa que aumentar ou bloquear a atividade do Sistema Endocanabinoide necessariamente produzirá um benefício terapêutico.

A biologia raramente funciona com um único botão.

 

Então o que a Cannabis tem a ver com tudo isso?


Agora a história começa a fazer sentido.

A Cannabis contém diversas moléculas capazes de interagir com sistemas biológicos.

Entre elas estão os fitocanabinoides, sendo o THC e o CBD os mais conhecidos.

O THC — Δ9-tetraidrocanabinol — interage diretamente com os receptores canabinoides, especialmente CB1, e é considerado um agonista parcial desses receptores.

É essa interação com CB1, entre outros mecanismos, que ajuda a explicar muitos dos efeitos característicos do THC sobre o sistema nervoso.

Já o CBD, ou canabidiol, possui uma farmacologia bastante diferente.

Sua interação direta com CB1 e CB2 é muito menor que a do THC e seus efeitos envolvem diversos outros alvos moleculares.

Por isso, não é cientificamente adequado dizer simplesmente que “CBD ativa o Sistema Endocanabinoide”.

Sua ação é mais complexa — e justamente por isso continua sendo objeto de intensa investigação.

Essa distinção será importante ao longo desta série:

Cannabis não é sinônimo de THC.

THC não é sinônimo de CBD.

E nenhum deles é sinônimo do Sistema Endocanabinoide.

 

E onde entram os aromas?


É aqui que nossa história começa a se aproximar da Aromacologia.

As plantas aromáticas produzem uma grande diversidade de moléculas voláteis, entre elas os terpenos.

Algumas dessas moléculas podem interagir com receptores e outras estruturas biológicas.

Um exemplo particularmente interessante é o β-cariofileno, um sesquiterpeno encontrado em diversas plantas aromáticas e também na Cannabis.

Estudos farmacológicos mostram que o β-cariofileno pode atuar como agonista seletivo do receptor CB2.

É uma descoberta fascinante porque coloca uma molécula tradicionalmente estudada no universo dos aromas diante de um receptor pertencente ao Sistema Endocanabinoide.

Mas precisamos fazer uma pausa aqui.

Uma coisa é uma molécula isolada apresentar determinada atividade farmacológica em estudos experimentais. Outra é concluir que simplesmente sentir seu aroma produzirá o mesmo efeito no organismo.

O caminho entre uma molécula aromática, sua percepção pelo sistema olfativo, sua absorção, sua concentração nos tecidos e um eventual efeito fisiológico é muito mais complexo.

Essa diferença será fundamental para compreendermos, nos próximos artigos, como aromas, terpenos, sistema nervoso e sinalização molecular podem — ou não — se relacionar.

 

O Sistema Endocanabinoide é maior do que imaginávamos


Durante muito tempo, a descrição mais conhecida do Sistema Endocanabinoide girou em torno de uma estrutura relativamente simples: anandamida + 2-AG + CB1 + CB2 + enzimas.

Hoje sabemos que a história é muito maior.

A investigação desses mecanismos revelou outras moléculas lipídicas semelhantes aos endocanabinoides clássicos, diferentes receptores, canais iônicos e diversas enzimas capazes de participar dessa complexa rede de sinalização.

É nesse contexto que ganhou força o conceito de endocanabinoidoma.

Em vez de imaginar um sistema isolado, passamos a enxergar uma verdadeira rede de moléculas e vias que se comunicam e se sobrepõem.

Uma rede dentro de outra rede.

E talvez essa seja uma das partes mais interessantes dessa história:

quanto mais a ciência investiga, menos parece existir uma única “via dos canabinoides”.

Existe uma linguagem molecular muito mais ampla.

 

O que sabemos — e o que ainda estamos descobrindo?


Sabemos que o organismo produz seus próprios endocanabinoides.

Sabemos que eles interagem com receptores específicos.

Sabemos que participam da modulação de diferentes processos fisiológicos.

Sabemos que essa sinalização pode ser alterada por condições fisiológicas, ambientais e patológicas.

E sabemos que moléculas produzidas por plantas, como alguns fitocanabinoides e determinados terpenos, podem interagir com componentes dessa rede.

Mas ainda existem muitas perguntas.

Qual é exatamente a participação do Sistema Endocanabinoide em cada condição?

Em quais situações sua modulação pode ser benéfica?

Qual molécula funciona melhor, em qual contexto, em qual dose e por qual via?

E, principalmente, o que foi demonstrado em seres humanos e o que ainda permanece restrito a estudos celulares ou animais?

Essas perguntas são fundamentais.

Porque existe uma diferença enorme entre descobrir um mecanismo biológico interessante e demonstrar um tratamento eficaz e seguro.

Conhecer um mecanismo biológico é diferente de ter encontrado um tratamento.

Essa será uma das premissas desta série.

 

E o que isso tem a ver com a Aromacologia?


Talvez, neste primeiro momento, a resposta seja apenas:

mais do que imaginávamos — e menos do que algumas promessas fazem parecer.

A Aromacologia nos convida a investigar as relações entre moléculas aromáticas, percepção olfativa, cérebro, comportamento e contexto.

O estudo do Sistema Endocanabinoide acrescenta outra camada a essa conversa: uma rede molecular capaz de participar da comunicação entre diferentes sistemas do organismo.

Mas entre o aroma de uma planta e uma resposta biológica existe uma longa cadeia de acontecimentos.

Percepção.

Sistema nervoso.

Moléculas.

Receptores.

Metabolismo.

Contexto.

Dose.

Via de exposição.

E, finalmente, resposta.

É justamente nessa interseção entre aromas, moléculas, cérebro e comportamento que nossa jornada começa.

 

Para onde vamos agora?


Começamos com uma pergunta curiosa:

Existe Cannabis dentro de nós?

A resposta é não — mas existe algo muito mais interessante.


Existe em nosso organismo uma rede própria de sinalização que a ciência descobriu enquanto tentava compreender como os componentes da Cannabis produziam seus efeitos.

Uma rede que participa da regulação de diferentes processos fisiológicos.

Uma rede que produz seus próprios mensageiros.

Uma rede que conversa com o sistema nervoso, com processos imunológicos e com outros sistemas do organismo.

E uma rede que parece ser muito maior do que imaginávamos quando recebeu seu primeiro nome.


No próximo artigo, vamos olhar para a própria planta.

Porque, quando falamos em Cannabis, THC está longe de contar toda a história.

Existem outros fitocanabinoides.

Existem terpenos.

Existem diferentes combinações químicas.

E existe uma pergunta que há décadas desperta interesse científico:

será que essas moléculas funcionam melhor isoladamente ou quando estão juntas?

É aqui que começa nossa próxima etapa:

Cannabis além do THC: fitocanabinoides, terpenos e o efeito entourage.

 

Conhecimento também é uma forma de cuidar.


Gostou deste conteúdo?

Se este artigo despertou novas percepções, compartilhe com quem também se interessa pelo encontro entre olfato, natureza, neurociência e bem-estar.

Continue explorando o Conhecimento ÖListic e descubra como os aromas podem transformar a maneira como percebemos pessoas, ambientes e memórias.


Sobre a autora

Valéria Noffs é fundadora da ÖListic, perfumista botânica clássica, aromaterapeuta especializada em Psicoaromaterapia e terapeuta holística integrativa. Pós-graduanda em Neurociências, também é advogada e designer de interiores, dedicando-se à pesquisa e ao desenvolvimento de experiências olfativas, neuroarquitetura e bem-estar integrativo.


ÖListic · Aromacologia & Bem-Estar - Energia interagindo com energia.

Comentários


bottom of page